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Rebranding Duna

Rebranding Duna

“I Must Not Fear, Fear is The Mind-Killer.”

A franquia Duna é uma das mais influentes da literatura de ficção científica, desde o lançamento do primeiro livro em 1965, o universo criado pelo autor Frank Herbert conquistou muitos fãs e leitores ávidos.

A história se passa milhares de anos no futuro, onde o universo é dominado por várias casas nobres que competem pelo controle do planeta desértico chamado Arrakis (Duna). Este planeta é o único produtor da especiaria melange, uma substância altamente cobiçada por suas propriedades psíquicas e capacidade de prolongar a vida.

Seguimos a jornada do protagonista Paul Atreides, um jovem nobre destinado a se tornar o líder de sua casa, a Casa Atreides. Quando sua família assume o controle de Arrakis, eles enfrentam intriga política, rivalidades com a casa Harkonnen e a ameaça constante das criaturas gigantes do deserto conhecidas como os vermes de areia. 

Paul, dotado de habilidades especiais e misteriosas, é arrastado para um destino maior do que ele jamais poderia imaginar, envolvendo profecias, religião e a busca pelo controle da especiaria.

A saga continuou ganhando novos livros que expandem a mitologia do planeta Arrakis e a luta pela especiaria, até mesmo após a morte de Herbert, a série continuou ganhando livros escritos por seu filho, Brian Herbert, em parceria com o escritor americano Kevin J. Anderson. 

Com o sucesso e aclamação dos livros, muito se falou sobre adaptar essa saga para os cinemas, mesmo que para muitos diretores e roteiristas, a tarefa parecia ser impossível.

Na época, acreditava-se que livros grandes de fantasia e ficção científica como O Senhor dos Anéis e Duna jamais poderiam ser adaptados fielmente aos cinemas, afinal, não existia a tecnologia necessária para realmente criar esses mundos de forma convincente.   

Mas isso não significa que não houve tentativas.

Duna de Jodorowsky – de arte surrealista para a cultura pop.

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Duna de Jodorowski teria sido o filme mais ambicioso já feito.

A primeira tentativa é uma parte da história muito interessante e que valeria um artigo próprio.

Tudo começou quando um consórcio francês comprou os direitos de adaptação do livro, com o diretor chileno Alejandro Jodorowski, de filmes como El Topo (1970) e A Montanha Sagrada (1973), no comando do projeto.

Jodorowski é um famoso surrealista, então suas obras são bem interpretativas e misteriosas, com muito misticismo, lógica de sonho e uso de drogas alucinógenas, o que de certa forma, combinava perfeitamente com a trama de Duna.

O problema é que Jodorowski começou a ter ideias muito grandiosas, o que fez o filme gastar cerca de 9 milhões apenas em pré-produção, um custo considerado muito alto para a época.

Inclusive, é bem possível que Duna de Jodorowski teria sido o filme mais ambicioso já feito, só para listar algumas das demandas:

🔸 A trilha sonora seria composta pelas bandas de rock progressivo Pink Floyd (no auge de seu sucesso) e Magma. 

🔸 O elenco contaria com o pintor surrealista Salvador Dalí no papel do imperador (esse pediu um cachê de 100 mil dólares por hora, o que era impensável na época) e também teria papéis para Orson Welles, Gloria Swanson, David Carradine, Mick Jagger, Udo Kier e Amanda Lear.

🔸 Os artistas H. R. Giger, Chris Foss e Jean Giraud (conhecido como Moebius) fariam o design de sets e personagens, e Dan O’Bannon faria os efeitos especiais.

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O artista H.R. Giger produziu algumas artes para o filme.

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O artista de quadrinhos Moebius também trabalhou nos concept arts.

🔸 O filme teria a duração de 14 horas, com várias liberdades criativas feitas por cima do material original.

Obviamente, nenhum executivo de Hollywood ficou muito entusiasmado em produzir uma obra surrealista de 14 horas que custaria milhões de dólares para fazer, e o filme acabou sendo cancelado.

Porém, muito material chegou a ser produzido, especialmente pelo departamento de design, essas criações circularam por vários estúdios de Hollywood, e acredita-se que muitos dos designs desenvolvidos para Duna foram reutilizados e adaptados para outros filmes.

Só para listar alguns: Star Wars, Blade Runner, Exterminador do Futuro, Alien (esse uniu novamente H.R. Giger e Dan O’ Bannon), e O Quinto Elemento (usando alguns dos designs criados por Moebius), todos beberam desse projeto cancelado como fonte.    

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Giger depois viria a trabalhar em Alien (1979), fazendo o design icônico da criatura. Dan O’ Bannon (escalado para os efeitos de Duna) escreveu o roteiro do clássico.

Em 2013, foi lançado um documentário chamado “Jodorowsky’s Dune”, que mostra com entrevistas dos envolvidos como foi o processo de desenvolvimento do projeto.

Jodorowsky’s Dune (2013) mostra o que poderia ter sido o filme.

Duna de Lynch – ainda surreal, agora com sintetizadores.

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Spoilers: não foi o “filme evento” de 1984.

Com o fracasso da produção de Jodorowski, os direitos foram vendidos para o produtor Dino De Laurentis, que inicialmente contratou o diretor Ridley Scott (de “Alien”) para comandar o filme.

A ideia inicial era dividir o filme em duas partes, mas eventualmente, Scott perdeu interesse no projeto e partiu para dirigir Blade Runner (1982). 

Laurentis então contatou o diretor David Lynch, que havia feito Eraserhead (1977) e O Homem Elefante (1980), curiosamente, também um artista conhecido por obras surrealistas.

Lynch havia recusado a oferta de dirigir Star Wars: O Retorno de Jedi (1983), mas aceitou fazer Duna por ser uma história mais adulta (e similar).

Infelizmente, a produção do filme foi um desastre, Lynch e De Laurentis tinham visões muito conflitantes sobre a obra, e o produto final acabou sendo bem inconsistente. Ou seja, ele tem a estranheza típica dos filmes de Lynch, mas com a tentativa de fazer algo mais comercial de Laurentis.

Curiosamente, a trilha sonora também foi feita por uma banda de rock, mas no lugar de Pink Floyd, foi vez da banda Toto, famosa por músicas como “Africa” e “Rosanna.”

Mesmo com o projeto finalizado, Lynch abandonou a autoria do filme, pedindo para usarem o pseudônimo Alan Smithee, nome oficial usado por cineastas que desejam destituir um projeto. O filme foi um fracasso de bilheteria e crítica em 1984.

Mas nem tudo foram espinhos, Lynch entrou em sua era mais aclamada após o filme, com Veludo Azul (1986) e a série Twin Peaks (1990) como seus próximos projetos. Os atores Kyle MacLachlan (Paul Atreides no filme), Brad Dourif, Virginia Madsen e Patrick Stewart seguiram e tiveram carreiras de sucesso mesmo após o fracasso do projeto.  

Trailer da adaptação feita em 1984.

Duna de Villeneuve – nem tão surreal.

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Uma nova chance.

Após décadas, vários roteiros foram feitos e descartados, diretores foram escalados para logo serem demitidos, e Duna continuou em um limbo de produções canceladas.

Mas uma coisa que Hollywood nunca faz é largar o osso.

Vale dizer que foram feitas duas minisséries que adaptaram os dois primeiros livros (em 2000 e 2003), pelo Sci Fi Channel. Ambas são bem fiéis, mas com um orçamento extremamente baixo, e não eram exatamente o que os fãs queriam.

Finalmente, em 2016, os direitos foram para a Legendary Pictures, que contrataram o diretor Denis Villeneuve, de Os Suspeitos (2013) e Blade Runner 2049 (2017) para comandar a nova adaptação.

A ideia do rebranding aqui foi se livrar da imagem de filmes anteriores e mostrar que esse era um projeto grande e sério. O elenco juntou alguns dos atores mais famosos da atualidade, como Oscar Isaac, Jason Momoa, Rebecca Ferguson, Zendaya, Josh Brolin, Javier Bardem e Timothée Chalamet (como Paul Atreides).

Ou seja, são nomes de peso que deram legitimidade ao projeto. 

O próprio Villeneuve é um diretor bem aclamado, com uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor por A Chegada (2016). É um artista que preza bastante pelo uso de efeitos mais práticos e realismo, usando CGI apenas quando necessário.

A inclusão de astros em ascensão como Chalamet e Zendaya também atraíram um público mais jovem.

Assim como a ideia inicial da adaptação dos anos 1980, o primeiro livro foi dividido em duas partes, logo, o filme foi intitulado Duna – Parte 1.

Um detalhe curioso é que o trailer do filme faz uma menção bem interessante ao projeto cancelado dos anos 1970: foi escolhida a música “Eclipse” do Pink Floyd, como música do trailer, a banda que iria fazer a trilha sonora da primeira adaptação.

“…And everything under the sun is in tune, but the sun is eclipsed by the moon.”  

O filme estava marcado para estrear em 2020, mas por conta da pandemia, foi adiado para outubro de 2021. 

Duna – Parte 1 faturou cerca de 400 milhões de dólares pelo mundo, longe de ser um sucesso absoluto, mas o suficiente para garantir sua segunda parte, que promete ser ainda mais grandiosa.

A crítica também foi bem positiva, muitos elogiando a direção de Villeneuve e o escopo de do filme. 

A sequência estava marcada para estrear neste ano (2023), mas por conta das greves de roteiristas e atores de Hollywood, o filme foi adiado para março de 2024.

O medo é o assassino da mente.

Rebranding Duna

O que podemos aprender com rebranding vendo a história de adaptações de Duna?

Bem, às vezes ambição é o assassino de orçamentos.

A ideia de Jodorowski era muito maluca e grandiosa para ser produzida, provavelmente seria o filme mais fascinante já feito, mas comercialmente falando, era impossível de desenvolver.

Vale dizer que ainda usam conceitos criados por essa versão, então não foi um fracasso completo, inclusive, talvez tenha sido o nascimento de uma nova geração de ficção científica.

Já a versão de Lynch foi um fracasso de visões conflitantes, cada pessoa envolvida na produção tinha sua própria ambição do que o filme deveria ser, e nessa mistureba o filme acabou sendo uma bagunça completa.

É óbvio que dois diretores surrealistas nunca iriam entregar o filme popular e comercial que os produtores queriam, então a escolha por eles foi um tanto estranha.

Mas por outro lado, tanto Jodorowski quanto Lynch tinham uma mente imaginativa e criativa que poderiam fazer algo único e extraordinário com esse material.

Villeneuve, de certa forma, foi a escolha ideal para unir essas duas ambições, a artística e a comercial, e por boa parte, foi uma decisão bem sucedida.

Ele conseguiu contar essa história de forma coesa, em uma escala que faz sentido com o orçamento. Vale dizer que a tecnologia hoje possibilita que essa saga seja contada de forma mais fiel, algo que era muito difícil em décadas passadas.

Porém, uma crítica que pode ser feita ao novo filme, é que muito da criatividade de designs que tivemos nas versões anteriores está um tanto ausente aqui. 

Longe de desmerecer o trabalho dos milhares de envolvidos na produção, mas os visuais de Duna já parecem bem batidos em um mundo em que várias obras foram inspiradas pelo livro original. 

Mas é inegável que a nova adaptação se conectou melhor com o público, foi um rebranding muito bem-sucedido que possibilita uma nova franquia.

É incrível pensar no legado de Duna, pois sua influência pode ser sentida em milhares de obras, tanto no cinema quanto na literatura, seja nas tramas de guerras espaciais e escolhidos de Star Wars, nas conspirações de famílias nobres de Game of Thrones, ou nos tantos designs que foram reutilizados e adaptados para outros filmes. 

Todas essas obras têm uma fonte em comum, um oásis de criatividade num planeta deserto. 

Duna vive na cultura pop, mesmo para quem não a conhece.

A segunda parte estreia em 15 de março de 2024.

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