A geração Z chegou pra ficar!
Este ano nos trouxe dois filmes de grande sucesso inesperado: Obsessão e Backrooms.
Duas obras de terror, relativamente independentes (no caso de Backrooms, com o dinheiro e divulgação de uma marca maior, a A24) que surpreenderam principalmente pela idade de seus diretores.
Obsessão foi dirigido por Curry Barker, de 26 anos, com um orçamento de US$ 750 mil, e Backrooms foi dirigido por Kane Parsons, de apenas 20 anos, com cerca de US$ 10 milhões.
Ambos muito jovens e com o histórico de fazer curtas para o YouTube antes de entrar para a indústria.
O mais impressionante é a recepção e o lucro que esses filmes fizeram: Obsessão arrecadou cerca de 460 milhões de dólares, se tornando um dos filmes mais lucrativos da história. Backrooms fez cerca de 360 milhões de dólares e se tornou o maior sucesso do estúdio.
Esse fenômeno não surge de um vácuo, é algo que já se encaminhava ao analisar todo o zeitgeist do momento. E isso engloba a definição de gerações, a cultura da internet e o cenário do cinema atual.
Quem foi que inventou essa divisão de gerações?
O estudo e a definição moderna de gerações que vemos hoje em dia começou com o filósofo e sociólogo alemão Karl Mannheim, que em seu ensaio The Problem of Generations, defendia a ideia que pessoas nascidas em determinado período não compartilhavam apenas a mesma idade, mas todo um conjunto de experiências e ideais similares.
Depois esse conceito foi pego pelo marketing para delimitar melhor os públicos-alvo e definir estratégias de venda baseadas em costumes comuns por determinadas fatias de idades.
As últimas foram:
– Geração X (1965–1981): Jovens que cresceram no contexto pós-Segunda Guerra Mundial. Acompanharam o movimento Hippie, ouviram os Beatles e assistiram o homem pisando na lua pela primeira vez.
– Millennials (1982 – 1996): pessoas nascidas em um contexto de evolução tecnológica, viram as transições do analógico para o digital, ficaram num meio termo entre o mundo antes e durante a internet.
– Geração Z (1996 – 2012): uma geração que já nasce hiperconectada, cresceu em um contexto de alta vigilância e redes sociais.
Ok, mas como isso se conecta ao sucesso dos filmes?
É preciso analisar o conteúdo dos filmes, pois eles dizem muito sobre as ansiedades e medos da Geração Z.
Primeiro, é importante entender o porquê do gênero Terror.
Terror em outras gerações era considerado algo mais nichado, que sempre teve seus defensores, mas que boa parcela do público considerava uma “arte menor”, mais focada em choques e emoções baratas.
Esse é um dos motivos que filmes de terror raramente foram indicados ao Oscar ou outros prêmios de renome.
Já a Geração Z parece mais confortável e aberta ao terror como um gênero legítimo e uma forma muito potente de contar histórias e expressar emoções.
É uma geração que cresceu com total acesso às grandes obras de terror, e que na internet, consumiu creepypastas (contos digitais de terror), jogos de susto e encontrou outros entusiastas com facilidade em fóruns ou nas redes sociais.
Também é uma geração que presenciou muitos horrores, por mais que gerações anteriores sempre vejam as próximas como “frescas ou fracas”.
A geração Z cresceu num contexto pós 11 de setembro, acesso irrestrito à internet, filmagens de execuções compartilhadas em celulares, sem falar da pandemia de 2020, que foi um trauma coletivo que potencializou o isolamento e a solidão nos anos seguintes.
Então, não é nenhuma surpresa que os dois maiores representantes do cinema da Geração Z em 2026 sejam dois filmes de terror.
Obsessão: o terror dos relacionamentos
Relacionamentos sempre foram um assunto tabu, independentemente das gerações, mas a geração Z tem seus próprios problemas quando se trata disso.
Por ser a primeira geração hiperconectada, a Gen Z precisa ser mais cuidadosa com que eles decidem se relacionar. O risco de ser exposto é muito maior e qualquer constrangimento, mesmo que pequeno, pode ser potencializado pela internet.
E esse é um dos maiores medos da Gen Z: o famoso “cringe”, virar chacota, meme, ser constrangido no digital e no presencial.
Obsessão explora bastante esse medo, é o estopim de toda a trama: Bear quer confessar sua paixão pela melhor amiga Nikki, mas tem medo demais de passar por um possível constrangimento ao abordar esse assunto e ser rejeitado.
Ele acaba comprando um galho do Salgueiro dos Desejos (uma invenção do filme, seria o equivalente à Lâmpada do Gênio na trama), que supostamente concederia um desejo. Ele usa o galho e deseja que Nikki o ame acima de qualquer coisa, e infelizmente, o desejo é concretizado das piores maneiras possíveis.
É a clássica trama de “cuidado com o que você deseja”, mas o filme vai ainda mais longe disso, abrindo uma discussão sobre self entitlement (atitude de achar que tem direito a alguma coisa), consentimento, misoginia e outros assuntos que estão muito em alta.
Talvez por isso Obsessão conversou tão bem com essa geração, ele aborda medos e tensões que estão muito à flor da pele nessa faixa de idade.
Todos têm suas próprias interpretações sobre o filme e querem dar seus 2 centavos, o que gerou um grande engajamento.
Talvez em outra época, Obsessão poderia ser um drama, mas em 2026, ele só poderia ser terror. E é o tipo de filme que só poderia ser feito por uma pessoa mais jovem.
Backrooms: o terror do vazio
Houve uma piada sobre os Backrooms que, apesar de ser maldosa, não deixa de ser verdade:
O maior medo da Gen Z é um escritório.

Mas antes de abordar essa frase, segue um contexto sobre o que são os Backrooms.
Essa foto acima foi originalmente postada no Reddit em 2011, como uma imagem que causa um certo desconforto ou estranhamento. E depois em 2019, foi criada uma mitologia por cima da foto, o texto original dizia:
“Se você não tomar cuidado e acabar atravessando os limites da realidade por “noclip” nas áreas erradas, vai parar nas Backrooms, onde não existe nada além do fedor de carpete velho e úmido, da loucura daquele amarelo monocromático, do ruído interminável de fundo das lâmpadas fluorescentes zumbindo no máximo e de aproximadamente seiscentos milhões de milhas quadradas de salas vazias, divididas aleatoriamente, nas quais você ficará preso.
Que Deus te ajude se você ouvir alguma coisa vagando por perto, porque pode ter certeza de que ela já ouviu você.”
Logo, mais pessoas foram criando novas histórias e “níveis” diferentes do que seriam esses Backrooms. Entre essas pessoas, havia um jovem chamado Kane Parsons, que aos seus 16 anos, criou uma série de curtas sobre essa nova lenda urbana.
O vídeo se tornou um grande sucesso, e o estúdio A24 farejou uma bela oportunidade de lucro, apostando no jovem diretor para fazer um longa baseado nos Backrooms.
O filme foi muito bem recebido por críticos e público, mas é possível ver uma certa discrepância entre críticos mais velhos e os mais jovens quando se trata do terror na obra.
É interessante ver que muitos críticos mais velhos não acharam o filme assustador, tendo uma certa dificuldade em entender por que salas vazias e amarelas que se estendem pela eternidade seriam assustadoras.
E é aí que entra o significado da piada de antes: o medo não é tão visceral, é mais existencial em sua essência.
Então, porque escritórios seriam assustadores?
Para gerações mais velhas, havia uma certa promessa de estabilidade através do trabalho, a ideia de que, se você trabalhasse bem, você poderia ficar pra sempre na mesma empresa e sustentar uma família inteira com seu salário.
Em 2026, essa promessa já não condiz mais com a realidade.
A Gen Z passou por crises financeiras constantes, em que seus direitos são sempre ameaçados, e os custos de vida se tornaram cada vez mais absurdos.
A ideia de formar família, comprar uma casa e gerar renda se tornou cada vez mais uma fantasia muito distante (não impossível, mas muito difícil).
Porém, o trabalho continuou extenso, horas e horas ainda são dedicadas a exercer as tarefas, e o trabalho deixou de estar limitado apenas a determinados locais, ele invadiu outros momentos da vida cotidiana.
Logo, todos os lugares se tornam um escritório.
Imagine que você simplesmente caiu da sua realidade para essa dimensão paralela, e todo o lugar que você vai continua tendo exatamente aquela mesma configuração.
Sua casa é o escritório, a rua é o escritório, a praça é o escritório, a praia que você viajou continua sendo aquele escritório.
Os Backrooms são a personificação desse medo. Um lugar sem fim ou propósito. Tangível, mas ainda assim, vazio.
Logo, o medo das paredes amarelas, o barulho constante das luzes e o carpete velho e úmido que se estendem pela eternidade passam a fazer mais sentido.
Mas além disso, algo que o filme explora, talvez até de maneira não intencional, é a entrada das inteligências artificiais neste contexto de trabalho.
No filme, deixa-se a entender que os Backrooms são alguma força desconhecida que tenta recriar a nossa realidade, mas algo sempre sai errado nessa tradução, por isso temos criaturas com mais olhos e dedos que o normal, ou outras feições deformadas.

Não muito diferente das criações de IA. Ele entende as formas gerais, mas não sabe interpretar nuances ou detalhes, e sua recriação sempre resulta em estranhamento.
Ainda mais considerando que ela replica as pessoas do mundo real, o que pode ser interpretado como uma “substituição.”
Backrooms não é o único filme falando sobre esse tipo de terror existencial, a série Severance da Apple TV também parte do mesmo anseio (no caso da série, mais sobre a separação entre a vida profissional e pessoal).
Mas Backrooms conversa diretamente com a Gen Z, ao adaptar uma história que se iniciou na internet e foi abraçada por essa geração como um medo compartilhado e autêntico.
A nova geração de artistas
Vale dizer que há um certo equívoco em chamar esses diretores de “YouTubers que se tornaram cineastas.”
Eles sempre foram cineastas, a única diferença é que o YouTube se tornou a principal plataforma para novos artistas divulgarem seus trabalhos.
Se Kane Parsons e Curry Barker tivessem nascido em 1965, eles fariam filmes com câmeras antigas e entrariam na indústria de outras maneiras.
Se Alfred Hitchcock tivesse nascido em 2001, talvez fizesse shorts de suspense no TikTok.
As gerações mudam, mas a arte continua.
Fontes:
https://www.iberdrola.com/talentos/geracao-x-y-z
https://rollingstone.com.br/cinema/o-que-sao-backrooms-a-creepypasta-que-virou-o-terror-mais-aguardado-do-ano/