Vivemos em um momento onde nunca tivemos tantas comodidades. Tarefas e atividades que antes demandavam tempo, esforço ou até deslocamento físico, hoje se resolvem com alguns poucos toques na tela do celular.
Tendemos a ver isso como evolução ou até como uma revolução na nossa forma de viver, porque, de fato, muitos benefícios vieram dos avanços tecnológicos: do acesso à informação, à pluralidade de visões, podemos nos sentir um pouco mais próximos daquela pessoa querida que mora longe, e temos a possibilidade de conhecer e criar conexões com pessoas a milhares de quilômetros de distância.
No fim, pode-se dizer que muito do cotidiano foi moldado pelo digital.
No meio de tantos benefícios deixamos de notar o que precisou ser deixado para trás pela necessidade de se adequar a essa nova forma de viver.
Justamente por trazer facilidade e agilidade para nossa vida, vamos desaprendendo a passar por processos demorados e que trazem certo grau de dificuldade; inclusive, vamos nos tornando intolerantes ao erro e à frustração.
Hoje, o caminho mais óbvio quando surge a vontade de aprender algo novo, é uma pesquisa na internet ou buscar referências em redes sociais.
Vamos supor que hoje você quer aprender um instrumento musical: basta poucos minutos de pesquisa ou consumo de conteúdo para o seu algoritmo ser inundado por professores de música, vendedores de curso, marcas de instrumentos e equipamentos… Finalmente você começa a estudar o seu instrumento, mas logo começa a perceber várias dificuldades no processo.
Você persiste, mas ao mesmo tempo, está consumindo todo esse universo de conteúdos e propagandas que já tomaram conta do seu algoritmo.
Logo começam a surgir as dúvidas:
“Será que a solução seria comprar um instrumento da marca X?”
“Tem o curso do guru Fulano que promete ensinar a tocar como um profissional em 30 dias.”
“Acho que não nasci com o dom pra isso, não consigo tocar como as pessoas que vejo online”.
Isso tudo vai acontecer em um espaço muito curto de tempo. Tempo esse que estamos economizando com todos os benefícios e facilidades da tecnologia. Tempo esse que também parece que não estamos dispostos a investir em coisas que não nos trazem recompensa ou prazer imediato.
Desaprendemos a aproveitar o processo, a nos contentarmos com os pequenos passos, as pequenas conquistas. Isso porque somos bombardeados com grandes feitos, grandes resultados.
A comparação deixa de ser entre o seu “eu” de ontem com o “eu” de hoje e passa a ser com o outro, o outro que você não conhece, que tem um contexto, história e realidade totalmente diferentes da sua.
Um pouco injusto pra você, não?
Em um mundo onde tempo é dinheiro, pode parecer um absurdo para alguns dedicar parte desse tempo para atividades ou aprendizados que não cumpram uma função prática ou que não trazem algum tipo de retorno financeiro.
Talvez o seu hobbie ou assunto de estudo não precise virar um negócio, talvez ele precise justamente ocupar esse espaço de “inutilidade” na sua vida, onde você não precisa ser punido pelos seus erros, onde não há prazo ou meta a serem cumpridos, onde seus passos, por menores que sejam, te deixem com orgulho de si.
Afinal, a vida é muito curta pra não se conhecer o inútil.