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Humanos Virtualizados

O que acontece quando as máquinas aprendem o que nós esquecemos?

Existe uma imagem que captura perfeitamente o nosso tempo: a do vegano que quer comer salgadinhos com sabor de bacon e beber cerveja sem álcool. Essa contradição é o espelho do que nos tornamos. Somos a projeção daquilo que não somos, mas que gostaríamos de ser; a versão idealizada que acreditamos ser mais evoluída. O mais interessante sobre este assunto é que estamos ativamente construindo esses nossos duplos. Estamos criando atendentes virtuais que são mais cordiais, inteligentes e atentos do que a média das pessoas, capazes de solucionar problemas, tirar dúvidas e até efetuar vendas. E tudo isso sem reclamar, sem achar ruim conversar e, o que talvez seja o maior dos superpoderes, escutar áudios na velocidade normal sem demonstrar impaciência. A reflexão, portanto,vai muito além de uma simples discussão sobre tecnologia, prompts, algoritmos e tokens. Estamos falando sobre a decisão consciente de criar humanos virtualizados, programados para executar infinitas ações instantaneamente enquanto respondem com a personalidade de uma pessoa real, seja ela a de um especialista solícito ou daquela tia que se comunica por emojis e áudios.

Sabe-se que fazer um programa executar ações por linhas de comando não é um grande desafio hoje em dia. A complexidade não está no “o quê”, mas no “como”. O que estamos buscando é mais do que funcionalidade; procuramos uma interação cada vez mais humanizada, que nos responda com uma educação impecável, mesmo enquanto processa milhares de requisições ao mesmo tempo.

O famoso prompt de comando se transformou em uma espécie de roteiro de personalidade, que gestores de automação usam para “ensinar” o robô a se tornar um humano muito melhor que a realidade. 

O resultado é uma “pessoa” que não tem mudanças de humor, não falta, trabalha 24 horas por dia e, metaforicamente, faz tudo isso sorrindo. Criamos um ideal de eficiência e cortesia que nós mesmos raramente conseguimos alcançar.

Isso nos leva a uma pergunta inevitável: o avanço tecnológico e suas inteligências virtuais estão nos ultrapassando na capacidade de interagir com outros seres humanos?

Pense em nossas interações diárias: a demora para responder, os erros de digitação pela pressa, as mensagens esquecidas e nunca lidas, o mau-humor e as respostas ríspidas. 

Nada disso será encontrado no manual de instruções de um agente virtual. Então, por que somos assim, se tudo o que desejamos do outro é justamente o oposto disso?

A resposta parece estar no caminho de menor resistência. Estamos terceirizando não apenas tarefas, mas também o esforço emocional. Evoluir, ser um humano melhor, paciente e suave dá muito trabalho, leva tempo, não é prático. Vivemos em uma época onde até um “Bom dia” pode ser visto como perda de tempo; queremos ir logo ao assunto e nos livrar da conversa o mais rápido possível, desde que seja com outro humano.

Porque, quando o papo é com uma inteligência artificial, nosso padrão de exigência muda completamente. Queremos cordialidade, respostas completas, quase poéticas. E a grande ironia é que foi um humano que orientou a IA para ser assim. 

Nós temos o conhecimento sobre como ser um bom interlocutor, a ponto de ensinarmos uma máquina a fazer isso com perfeição. Se somos capazes disso, por que não aplicamos essa mesma disciplina em nossa própria evolução pessoal? Talvez porque seja mais fácil projetar a perfeição do que vivê-la.

É por isso que precisamos ser a resistência

Não uma resistência contra o avanço da tecnologia ou as inteligências artificiais, pois são ferramentas fantásticas. 

A resistência deve ser contra nós mesmos, contra essa tendência de nos contentarmos com menos em nossas próprias interações. Que possamos usar a tecnologia não como uma muleta, mas como um espelho. 

Que a gente possa reduzir o ritmo, acalmar o pensamento e voltar aos nossos relacionamentos com mais… humanidade. Aquela mesma que estamos nos esforçando tanto para programar em silício.

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