Quando o tédio no trabalho gera sede pela criatividade
Várias torres para subir, inúmeros acampamentos para invadir, milhares de caixas para abrir em um mundo aberto gigantesco…
Mais um dia normal de programação nos escritórios da popular empresa francesa de games, Ubisoft.
A empresa que já foi uma casa de novas ideias, responsáveis por franquias como Prince of Persia, Assassin’s Creed, Far Cry, Rayman e muitas outras, agora se rendeu a uma fórmula repetitiva usada em todos os seus jogos.
Um funcionário começa a ficar entediado de repetir o mesmo script que os investidores e produtores insistem que é sucesso garantido.
Logo, ele começa a se lembrar da infância, dos jogos que o inspiraram a se tornar um desenvolvedor — de jornadas épicas, personagens marcantes, cenários impactantes e trilhas sonoras inspiradoras.
Ele lembra de jogos como Final Fantasy, Chrono Trigger e Lost Odyssey — RPGs épicos de outra época e uma filosofia diferente de game design.
Então, entre o tédio da mesmice do trabalho, ele começa a imaginar um jogo inspirado nesses clássicos, com um mundo e um conceito totalmente novo.
Essa ideia vai ganhando forma e logo se torna uma missão de vida. Ele começa a recrutar pessoas, até em locais inusitados, como um compositor desconhecido pelo SoundCloud, roteiristas e atores pelo Reddit.
O projeto ganha força, e mais pessoas vão colocando todo o seu esmero e criatividade, não apenas para cumprir uma meta, mas porque eles acreditam que estão fazendo algo realmente especial.
A ideia que nasceu no tédio agora tem mais de 30 pessoas envolvidas, com o apoio de estúdios extras, e até atores famosos, como Charlie Cox e Andy Serkis, entram na jogada.
E qual foi o resultado de todo esse esforço?
Clair Obscur: Expedition 33, do estúdio iniciante Sandfall Interactive, é o projeto de vários desenvolvedores que cansaram de repetir a mesma fórmula por anos, e quiseram explorar novas oportunidades.
O jogo veio praticamente do nada e abalou o mundo dos games. Notas máximas nos agregadores de resenhas (com a maior nota de usuários no Metacritic da história), 1 milhão de cópias vendidas em apenas 3 dias, e a adoração imediata de fãs do gênero (ganhando novos adeptos a cada dia).
Mas antes de explorar o que faz esse jogo ser tão valioso, uma breve sinopse:
A história se passa na ilha de Lumière, onde, anualmente, ocorre um evento chamado “Gommage”, em que uma entidade conhecida como a Pintora escreve um número em um monólito, e todas as pessoas com idade igual ou superior a esse número desaparecem misteriosamente.
A cada ano, esse número diminui, aumentando a ameaça de extinção à população.
Para interromper esse ciclo, a cidade envia expedições ao continente na esperança de derrotar a Pintora. A trama acompanha a 33ª expedição, composta por personagens como Gustave, Maelle, Lune e Sciel, em uma jornada repleta de desafios e descobertas.
Além de apresentar um mundo fantástico e original, o game encanta por sua história surpreendente, cheia de reviravoltas e momentos emocionantes, aliado a uma direção de arte magistral e alguns dos melhores personagens em memória recente.
Porém, a verdadeira estrela do jogo é a sua gameplay. Apesar de muitos virarem a cara por RPGs de turno, Clair Obscur torna esse estilo de jogatina mais interativo e divertido.
Diferente de outros jogos do estilo, em vez do jogador apenas esperar seu turno enquanto o inimigo age, você sempre tem a possibilidade de esquivar ou aparar os golpes, e cada aparada bem sucedida causa um contra-ataque poderoso.
Então, apesar de ter combate em turnos, a velocidade dos ataques é tão constante que o jogo praticamente se torna um jogo de ação (mesmo que com muita estratégia envolvida).
A trilha sonora também se destaca graciosamente, sendo o primeiro trabalho de Lorien Testard, com a participação vocal de Alice Duport-Percier e do brasileiro Victor Borba.
As músicas são bem variadas também, há composições épicas e instrumentais, com solos de guitarra, batidas eletrônicas, música erudita francesa e muito mais.
O álbum completo tem cerca de 8 horas de música e mostra como o compositor colocou toda a sua alma e criatividade nesse projeto.
Uma curiosidade interessante é que em exatos 33 dias, o jogo vendeu 3,3 milhões de cópias, coincidentemente similar ao tema do número 33 do jogo.
O título “Clair Obscur” é uma menção à técnica de chiaroscuro, que utiliza fortes contrastes entre luz e sombra para criar profundidade, uma metáfora perfeita tanto para os acontecimentos do jogo, quanto para sua produção.

Mesmo nas sombras da mesmice e da mediocridade, um raio de luz costuma aparecer de tempos em tempos, contrastando com um grande brilho que te faz lembrar das infinitas possibilidades que essa mídia ainda tem a oferecer.
A dica que fica para as empresas é: valorize a criatividade e o potencial do seu time além das fórmulas prontas, caso contrário, eles certamente vão achar alguém que vai.
Fontes:
https://manualdosgames.com/publisher-clair-obscur-orcamento-25