Chocolate, café, pão, vinho.
Itens comuns do dia a dia, presentes na rotina de praticamente todo mundo, em diferentes momentos e contextos. Mas há algo interessante que conecta todos eles na minha rotina e que vai além do simples consumo: a experiência da qualidade.
Durante muito tempo, é natural que a gente escolha esses produtos somente guiados por conveniência, hábito ou preço. O café mais tradicional, o pão mais acessível, o chocolate mais popular. Tudo cumpre seu papel. Mas no momento que a gente prova uma qualidade melhor, não tem como voltar a consumir a qualidade pior.
Eu nunca gostei muito de bebidas fortes (tipo vodca, gin). Até bebia quando tinha 18, 19, 20 anos, mais por pressão social do que por vontade mesmo. Aí, para acompanhar meu pai, comecei a beber vinho. Bebia com ele uma taça ou outra dos que ele trazia para casa.
Fui me interessando mais sobre os tipos, as marcas. Hoje, na minha casa, apreciamos muito vinho. Então, por óbvio, acabamos comprando alguns rótulos diferentes para provar e, conforme vamos subindo o nível, mais difícil fica voltar.
Já percebi que com o café é a mesma coisa. A gente passa muito tempo tomando o mais simples, aquele super torrado, tradicional, e quando prova um gourmet ou moído na hora, pronto. É o que basta para, no próximo gole do café “comum”, achar um monte de defeitos.
Pão é outro exemplo. Sempre compramos os que estavam em oferta no mercado. “Maldito” dia que resolvi comprar aquele da fatia mais grossa daquela marca famosa. Agora não quero saber de outro. Estou fadada a gastar todo meu dinheiro com meu bom gosto, então?
Brincadeiras à parte, esse processo revela algo importante: o desenvolvimento do gosto está diretamente ligado à experiência. Quanto mais repertório se constrói, mais refinada se torna a capacidade de perceber nuances. E, consequentemente, mais difícil se torna voltar aos padrões anteriores.
Não se trata de se tornar mais exigente de forma negativa, mas de ampliar a consciência sobre aquilo que se consome. De entender que qualidade não é apenas um atributo técnico, mas também sensorial e emocional.
Isso vai além da comida. Vai para os lugares que a gente frequenta, para o jeito que a gente organiza a casa, para as experiências que escolhe viver, até para pessoas que fazem parte da nossa vida. Quando o repertório aumenta, o olhar muda junto.
No fim das contas, “bom gosto não tem volta” não tem tanto a ver com consumo. Tem a ver com percepção.
E talvez essa seja a parte mais interessante de tudo isso. A gente evolui e passa a valorizar detalhes que antes nem existiam no radar. É uma mudança no nível de consciência.
A gente começa a reconhecer qualidade, intenção, processo. Começa a diferenciar o que é feito de qualquer jeito daquilo que foi pensado, cuidado, construído com propósito. E isso é positivo, porque essa mudança não limita, ela expande nossa sensibilidade e a forma como vivemos as experiências.
É claro que nem sempre eu posso “bancar” esse meu bom gosto. E em algumas situações, eu nem me arrisco. Adoro sentar em cadeira de plástico no boteco e comer petiscos duvidosos com os amigos. Mas no que eu posso, eu me permito, nem que seja só no café, no chocolate, no pão e no vinho.